Fiquei 52 dias presa em Brasília por manifestar o meu patriotismo. Agora estou com tornozeleira. Meu nome
é Thereza Helena Oliveira Souza Sena e moro na Suíça, em Zurique, há 10 anos, onde sou capelã e pastora
da igreja evangélica Nova Aliança. Tenho um filho de 17 anos e marido que não vejo desde o ano passado.
Eles ficaram na Suíça e eu não posso voltar para lá até que o Superior Tribunal Federal autorize.
Tenho 51 anos e há 25 moro no exterior. Antes de ir para Suíça, morei em Portugal. Desde o dia 9 de janeiro
sinto que a minha vida foi roubada: primeiro fomos levados para o Ginásio de Esportes, depois para o
Presídio Colmeia. Desde que sai em liberdade provisória, concedida pelo ministro Alexandre de Moraes,
estou em minha cidade natal, na casa de uma amiga, com tornozeleira eletrônica.
Não saio de casa depois das 18 horas e fico 24 horas dentro de casa nos finais de semana e feriados. Nem ao
menos estive na Praça dos Três Poderes. Fiquei no QG de Brasília o tempo todo no dia 8 de janeiro, porque
tenho esclerose múltipla, fibromialgia e utilizo equipamento para respirar.
Eu estou no Brasil para resolver alguns assuntos da minha filha, que se arrastaram ao longo do segundo
trimestre de 2022. Na minha estada, vi um vídeo com um senhor daqui da minha cidade natal, Teófilo Otoni,
MG. Ele estava na chuva, aos prantos, pedindo para o Brasil não se tornar comunista. Ver aquele senhorzinho
me tocou tanto que comecei a ir para o acampamento da minha cidade. Passei quase dois meses indo ao TG e
recebi convite para ir a Brasília, para uma manifestação no dia 9 de janeiro, uma segunda-feira. Me diziam
que precisavam de uma pastora, alguém da parte espiritual e eu fui. O acampamento de Teófilo estava
acabando e eu tinha um desejo particular de conhecer a Igreja das Nações, que fica em nossa capital federal.
Pensei em aproveitar o movimento que só aconteceria na segunda-feira e, sendo possível, iria ainda no
domingo visitar a igreja.
TUDO ACONTECEU MUITO RÁPIDO E SEM SENTIDO
Nós chegamos de ônibus em Brasília no sábado à noite, dia 7 de janeiro, quando a armadilha já estava sendo
montada e nós não percebemos. Nós caímos feito patinhos. No sábado, não fomos para a porta do quartel
com ônibus, pois a orientação era para ficarmos na Granja do Torto e só na manhã de domingo ir para o QG.
Nos disseram que teria uma reunião na madrugada, quando seria definido como seria a marcha para a Praça
dos Três Poderes e, só depois, iriam nos explicar como seria.
Ficamos meio incomodados com isso, até porque no nosso meio existiam militares da reserva, e um deles
inclusive atuou no passado na guarda nacional de Lula. Ou seja, tinha uma visão de estratégia e ele falou que
aquilo não estava cheirando bem. De qualquer forma, estávamos em Brasília e, de sábado para domingo,
dormimos no ônibus.
No domingo de manhã, fomos ao QG e lá procuramos uma tenda e ficamos dentro de uma do estado do Pará.
Devia ser em torno das 10 horas da manhã quando conseguimos nos ajeitar e já tinha um bom movimento de
pessoas, com cozinheira providenciando alimentação, gente conhecida. Não demorou muito e o nosso
motorista nos ligou comunicando que a Polícia Federal prendera todos os ônibus. Nos disse para darmos um
jeito de buscar as coisas que estavam dentro do ônibus.
Na mesma hora, começou a chegar muita gente chamando para descer para a Praça dos Três Poderes,
antecipando o ato de segunda-feira. Eu falei que não estava certo, até porque muita gente ainda estava na
estrada. De Teófilo Otoni, por exemplo, tinha ônibus que rodaria a noite inteira para chegar na manhã de
segunda-feira.
“Vamos, vamos, vamos!” e o pessoal foi. Eu fiquei porque não tinha como chegar de carro e eram 8 km de
caminhada. Como tenho muitas comorbidades, era impossível fazer esse percurso a pé. Além disso, as
pessoas estavam saindo do QG com a intenção de passar a noite lá na praça, orando, no meio do nada, e eu
não teria estrutura física para suportar.
INVADIU! INVADIU!
Por volta das 13h30, ali no QG ouvimos “Invadiu, invadiu!”. Curiosos, abrimos as nossas redes sociais e,
para o nosso espanto, começaram a aparecer uma sucessão de postagens de gente dentro dos prédios. Isso
causou grande estranheza, porque não é tão fácil assim invadir prédios públicos, ainda mais que estávamos
rodeados pelo exército e o pessoal desceu escoltado.
Não demorou e percebemos o movimento do Exército se intensificar e cercar todo o QG. Havia drone sobre
o acampamento, o que aumentava a sensação de que tinha algo errado acontecendo. A tarde passou e as
pessoas começaram a retornar ao QG, algumas feridas, outras não. As pessoas diziam: “Vamos embora,
Domingo à noite foi terrível para quem estava no acampamento. A gente não sabia se saia ou não. Tinha
gente que falava que quem tinha saído foi preso no hotel, em Uber, na rodoviária, em Goiás, que faz divisa. E
de fato muita coisa aconteceu, uma variedade de situações, pelos relatos que ouvimos depois. Nós
permanecemos e o QG amanheceu em alvoroço, com diversos ônibus, diferentes dos nossos, estacionados
junto ao QG e continuávamos a não entender o que se passava.
COMO FOI QUE VIREI NEGOCIADORA?
Esse foi o momento em que me aproximei da multidão e vi aquele quadro horroroso de desespero coletivo.
Senti que precisava negociar com o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) e com a Polícia Federal, e
tentar fazer alguma coisa em especial pelos idosos e crianças que estavam no QG. Me ofereci, por ser
mulher, uma pessoa de Deus, e fui com dois advogados e um outro senhor para o outro lado da rua onde
estavam todos alinhados. Fomos porque não existia uma liderança ali, por ser um movimento orgânico. Antes
de negociarmos, eles falavam com megafone conosco, dizendo que tínhamos apenas uma hora para esvaziar
o acampamento e sair da área militar.
Com a negociação, numa conversa amigável, queríamos ganhar tempo porque uma hora era pouco. Tinha
gente com muita coisa no QG, inclusive comerciantes estavam ali a trabalho com seus equipamentos, outros
tinham os seus automóveis, sem contar os cadeirantes, idosos e crianças. Tentamos ganhar um pouco de
tempo e na negociação explicamos que pelo menos as mulheres com filhos e idosos poderiam ser liberados
da triagem. Que deixassem as pessoas saírem em seus carros. Foram tentativas de sensibilização que fiz por
ser mulher, pastora e capelã.
Não houve maneira de a gente sensibilizar. Subimos ao palco e comunicamos a orientação de entrar nos
ônibus, priorizando os mais frágeis. A oficial Carla estava ao nosso lado e filmou tudo que falamos. O vídeo
que roda na Internet foi editado. Não tem todo o conteúdo da explicação que demos ao público sobre o
recado do BOPE e da PF.
QUEM É A MULHER DO CAMINHÃO DE SOM?
O que disse no palco foi o que nos disseram: o presidente Lula decretou a evacuação da área militar e vocês
terão que sair nesses ônibus, para depois serem liberados e terão que procurar outro meio de transporte para
voltar para as suas casas. Falava para todos, mas isso também valia para mim. Eles nos enganaram. Eles
mentiram. Hoje eu estou diferente, cortei os cabelos. As pessoas me perguntam por que usava casaco de
inverno no dia 9 de janeiro, em cima do caminhão do som. O fato é que sinto muita dor e aquele dia estava
frio em Brasília.
Falei também, ao microfone, que era para evitar confusão, desordens e que se alguém começasse a fazer
alguma coisa que se afastassem. Nós queríamos a liberdade e não confusão. Quanto mais organizados
fôssemos ao entrar nos ônibus e passar pela triagem, mais rápido seríamos liberados. Sei de gente que
resistiu e ficou no QG e foi transportado em camburão. Estávamos sem escolha e com uma falsa promessa.
DOENÇA GRAVE e 52 DIAS DE CÁRCERE
Meus laudos médicos de Zurique tiveram que ser traduzidos do alemão para o português rapidamente, até
porque dependo de aparelho de oxigênio. Porém, o fato de ter inúmeras comorbidades não facilitou em nada
a minha vida nos 52 dias que fiquei presa. Meus medicamentos nunca chegaram à cela e as dores que senti
foram enormes. Pelo menos o meu aparelho de oxigênio foi entregue. Lá no presídio tinha pouco ar.
Estávamos em 120 mulheres numa ala com apenas um chuveiro frio, duas privadas e um tanque. Eu ficava
muito nervosa pela falta de condições do local e a minha pressão disparou para 22. Lembro de uma colega de
cela que passou mal e foi socorrida com a minha máquina de oxigênio. Poderia ter morrido. Chegamos a
fazer uma carta relatando a falta de atendimento à saúde dentro do Colmeia.
TORNOZELEIRA E UMA VIDA ROUBADA
Sai depois de 52 dias presa em Brasília, voltei para minha cidade natal e todos os dias eu tenho que estar em
casa até às 18 horas. Nos finais de semana e feriados não posso sair. Isso para quem é pastora é complicado
porque os cultos em geral ocorrem à noite e nos finais de semana. Desde que tudo isso aconteceu em Brasília
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