O problema não é ter ambição, mas fazer dela um instrumento de traição ao país

Grande parte das pessoas que criticam a reação popular de rejeição ao ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, mesmo partindo de quem já lhe apoiou durante os anos mais críticos da Lava Jato, parece não entender o motivo desse comportamento.

Ocorre que ele é fruto de uma percepção que muitos tiveram diante de Sérgio Moro, não pelo fato do mesmo ter renunciado o seu cargo no governo Bolsonaro, mas pelas circunstâncias que se sucederam após essa renúncia.

Até o dia 24 de abril de 2020, a grande parte dos apoiadores do presidente Bolsonaro enxergava a união com Sérgio Moro algo fruto de uma pauta comum. O ex-ministro foi acolhido no atual governo não apenas pelo presidente, mas pelos quase 58 milhões de eleitores que deram ao “mito” a chance de governar o país.

Quando anunciou a sua renúncia, fazendo graves acusações contra Bolsonaro, Moro não perdeu o seu apoio popular de imediato. Seu histórico enquanto ex-juiz da Lava Jato lhe deu um voto de confiança na visão de muitos que, inicialmente, ficaram atônicos, esperando ver nas suas palavras elementos capazes de se contrapor o presidente.

Mudança de cenário

Esta percepção inicial, todavia, foi mudando aos poucos e não demorou muito, pois o próprio Sérgio Moro tratou de revelar um lado da sua pessoa, aparentemente, até então desconhecido do grande público: o lado político!

Já no primeiro dia da sua renúncia, em 24 de abril, Moro tratou de “vazar” prints de celular para ninguém menos que a Rede Globo, emissora que dispensa comentários no que diz respeito à oposição ao governo Bolsonaro.

Entretanto, a natureza do conteúdo apresentado nos prints foi mais agravante, pois, além de não terem sido elementos contundentes contra o presidente, expôs de forma desnecessária uma parlamentar (Carla Zambelli) da qual Moro havia sido padrinho de casamento, em fevereiro, revelando, assim, que o ex-ministro estava fazendo um esforço monumental para mostrar contundência em suas acusações ao ponto de ser antiético.

A partir de então, uma série de expectativas sobre as acusações de Moro contra Bolsonaro foram frustradas. O ex-diretor-geral da Polícia Federal, por exemplo, Maurício Valeixo, peça-chave das suas acusações, não confirmou em depoimento ter havido qualquer interferência do presidente na PF.

Nenhuma das autoridades que depuseram no inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar às denúncias de Moro contra Bolsonaro, corroboraram para a sua causa. Mas, pelo contrário, favoreceram a inocência do presidente ao ponto de grandes figuras, como a deputada (apoiadora de Moro) Janaína Paschoal reconhecer isso publicamente.

A bala de prata

O que seria a grande “bala de prata” de Sérgio Moro contra Bolsonaro, uma vez que nenhum dos elementos até então apresentados através de “vazamentos” e depoimentos na Polícia Federal foram contundentes para comprometer o governo? O vídeo da reunião ministerial ocorrida em 22 de abril.

A defesa de Sérgio Moro lutou no STF para que o vídeo fosse divulgado, pois segundo o ex-ministro deu a entender, todos veriam que Jair Bolsonaro teria lhe pressionado para interferir na Polícia Federal. Mas, mesmo tendo quase que a sua íntegra da gravação exposta ao país, qual foi o resultado?

Segundo Janaína Paschoal, o vídeo é tão favorável ao presidente que é capaz de lhe reeleger! A opinião da jurista não foi a única. Figuras de peso incontestável no mundo judicial, como o Dr. Ives Gandra Martins, também concordaram com a deputada, além da maioria da opinião pública, incluindo a de adversários históricos.

O Jornalista Milton Neves chegou a dizer que Celso de Mello, o ministro do STF responsável pela autorização de divulgação do vídeo da reunião ministerial, teria se tornado o principal “cabo eleitoral” de Bolsonaro. Estes são apenas alguns exemplos de como o que seria a “bala de prata” de Moro contra o presidente fracassou por completo.

Moro: a investida política

A partir de então, sem conseguir apresentar qualquer contundência material capaz de fundamentar suas acusações contra o presidente Jair Bolsonaro, não só diante da Justiça, mas também da opinião pública, qual foi a reação de Sérgio Moro? Investir nos ataques políticos.

Moro ingressou numa maratona de entrevistas e publicações que vão desde o seu microblog, no Twitter, como à coluna de revistas de oposição ao governo, como a Crusoé, ou artigo assinado para o jornal O Globo.

“As ações dele depois que saiu do ministério são todas de político”, reconheceu o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Essa percepção não é única. Qualquer analista entende que a postura atual de Sérgio Moro é a de um político, e isto depõe contra ele, e não em seu favor.

Isso porque ao deixar isso evidente, somado ao aparente fracasso judicial contra Bolsonaro, Moro sugere que a sua saída do governo não se deu por motivos reais capazes de comprometer os seus “princípios”, como ele argumenta, mas por algum interesse pessoal, talvez a própria ambição política.

O problema, no final das contas, é a possível ambição política de Sérgio Moro, ainda que o mesmo não assuma e faça parecer que está desinteressado em qualquer cargo de poder (difícil acreditar a essa altura)? Não!

O problema foi, aparentemente, ter se deixado levar por essa ambição ou orgulho a tal ponto que foi capaz de abandonar às ferramentas que já dispunha em suas mãos para colaborar para o bem do Brasil, ainda que viesse a se tornar oposição no futuro.

O problema foi sair do governo fazendo acusações até agora não comprovadas, adotar um discurso claramente político, se aliar à narrativas da oposição/”centrão” e até promover figuras como João Doria e Luciano Huck como “bons nomes” como candidatos à presidência em 2022.

Ou seja, definitivamente, o problema não é ter ambição: é fazer dela um instrumento capaz de violar a ética da própria trajetória, traindo a expectativa de um país que depositou em sua figura a confiança de que veria um ministro da Justiça disposto a lutar por seu país no atual governo, e não contra ele.

A decepção é tão inevitável que não duvidamos de que o ex-ministro pudesse classificar esta OPINIÃO a seu respeito como uma “fake news” ou “discurso de ódio”. Seria uma surpresa? Nesse momento, infelizmente não.

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